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O componente Língua Portuguesa nos anos finais do Ensino Fundamental e as práticas de linguagem contemporâneas

Ana Carolina Carvalho
Formadora de professores, jornalista especialista em Jornalismo Social e em O livro para a infância.

Marianka Santa Barbara
Mestre em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Formadora de professores e autora de materiais didáticos.

À primeira vista, colocar em prática as diretrizes da BNCC para o ensino da Língua Portuguesa pode parecer desafiador, mas aproximar a língua do cotidiano do aluno pode ser divertido e garantir um aprendizado mais leve e significativo.

A implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) trouxe às escolas a necessidade de refletir sobre as aprendizagens que os alunos precisam desenvolver em cada etapa da Educação Básica.

No componente da Língua Portuguesa para os anos finais do Ensino Fundamental, o foco está voltado ao desenvolvimento de competências e habilidades e à construção de conhecimentos linguísticos, textuais e discursivos que possibilitem a ampliação dos diversos tipos de letramento. Nessa perspectiva, o que faz sentido é o desenvolvimento de habilidades de acordo com os contextos de usos da língua.

Os letramentos destacados na BNCC são três: midiático, científico e literário, que correspondem aos campos de atuação (assim definidos por uma questão: o campo das práticas de estudo e pesquisa; o campo jornalístico midiático; o campo artístico-literário; e o campo de atuação na vida pública.), e contextualizam os conhecimentos em Língua Portuguesa.

Outro aspecto importante a ser destacado está relacionado à tecnologia.

Na BNCC, o impacto do uso da tecnologia na atualidade e a sociedade conectada não passaram despercebidos. E isso está relacionado às práticas de linguagem contemporâneas, que surgem muitas vezes a partir das culturas juvenis.

Para os anos finais do Ensino Fundamental, a cultura digital é abordada com textos multimodais e multissemióticos e o ensino da Língua Portuguesa se propõe a conectar produções escritas às de internet e ao audiovisual, criando gêneros híbridos, compostos por múltiplas linguagens.

E aqui vale destacar que, mais importante do que ensinar ao aluno a estrutura ou a composição de um determinado gênero, é prepará-lo para atuar nas práticas de linguagem de acordo com o campo de atividade no qual o gênero está inserido. E como fazer isso? Por meio do uso desses gêneros e explorando as características do campo, as ações desenvolvidas em cada área, os agentes envolvidos, os interesses e os conflitos que estão em jogo. Lembrando que as práticas de linguagem são quatro: oralidade, leitura/escuta, produção (escrita e multissemiótica) e análise linguística/semiótica. E não há hierarquia entre elas, ou seja, uma não é mais importante do que outra, nem podem ser praticadas isoladamente.

Talvez a introdução da linguagem da tecnologia nos conteúdos escolares seja um dos maiores desafios do professor dos anos finais do Fundamental: é preciso familiarizar-se com ela.

A maioria dos professores está conectada, faz uso de aplicativos e de redes sociais para se comunicar e se inteirar das últimas notícias, porém, desconhece ou sabe pouco de como usar a tecnologia para editar vídeos ou criar um gameplay, vídeos-minuto ou fanfic, por exemplo. Aqui, abre-se um espaço importante para uma maior integração entre professores e alunos: o intercâmbio de conhecimento, o que, na prática, pode ser traduzido de diversas maneiras. Que tal convidar os alunos para escrever uma resenha sobre sua série favorita do Netflix e postá-la em uma rede social específica? Ou ainda criar um clipe de um dos trechos de Quarto de Despejo, obra de Carolina de Jesus?

E se a Base desde o comecinho do Ensino Fundamental prevê a leitura e a produção/escuta de diversos gêneros textuais, quando os anos finais dessa etapa chegam, convidam o aluno a se debruçar cada vez mais em textos jornalísticos e publicitários, com a abordagem de estratégias discursivas e semióticas voltadas para a argumentação e a persuasão.

Nada mais atual do que discutir em sala de aula as fake news e aprender a reconhecê-las, avaliar comentários e opiniões publicadas nas redes sociais, ler e compreender notícias de site com linhas editorias diferentes, redigir textos com temas atuais da política, do comportamento da sociedade e do meio ambiente.

Ao fazer isso, você estará desenvolvendo habilidades no campo jornalístico-midiático. E mobilizando também comportamentos e conhecimentos que possibilitarão ao aluno a participação crítica nos vários campos de atividade humana.

Ao mesmo tempo a literatura não perde espaço: quando o aluno chega ao 6º ano, ele já teve acesso a esse campo de atuação e o texto literário não lhe é novo. Entretanto, a BNCC propõe lançar um olhar multicultural para a seleção das obras. Literaturas indígenas, africanas, afro-brasileiras, latino-americanas e de literatura universal, autores clássicos ou contemporâneos, incrementam a biblioteca do 6º ao 9º anos, com a missão de formar leitores que consigam mergulhar nas várias camadas de sentido do texto, embrenhar-se nas inúmeras vozes que as compõe para, não só dominar esse tipo de escuta e escrita literária, mas também acolher seus personagens e dramas com empatia.

Ainda é imprescindível cuidar da análise linguística e da oralidade. Nessa etapa do Ensino Fundamental, elas aparecem ainda mais contextualizadas às praticas sociais. Memorizar está em desuso na sala de aula e, outra vez, o protagonismo do aluno e a sua capacidade de compreender e manifestar conteúdos são o que vale e o que lhe garantirá habilidades como sustentar seu ponto de vista em uma discussão ou redigir textos reivindicatórios quando for necessário.

Talvez, a BNCC tire o professor do conforto daquilo que ele já sabe fazer com eficiência e bons resultados: porém, não é mais interessante trabalhar com alunos que expressam seus pensamentos e opiniões e contribuem para aulas mais gostosas e ricas?

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